Capítulo 5: Filtro
O refeitório às onze. O almoço de terça-feira era risoto de trufa com foie gras, o que significava que quem não podia pagar o refeição integral comenda de graça. Os bolsistas comiam o mesmo prato, só que em menor quantidade. O mesmo risoto, só que sem a trufa. A trufa ficava no fundo da panela, como quem sabe que o valor verdadeiro nunca chega ao prato.
Sentei na mesa dos Nível 4. Pilar já tinha um lugar reservado, o que era um gesto de lealdade tão público quanto um cartaz que dissesse "ali habita o inimigo de Valentina". Zeca apareceu com dois pires de risoto e se sentou do meu lado.
"Praça." Ele olhou ao redor. "Você viu a tabela de seguidores ontem à noite?"
"Não."
"Valentina tá em 461.080. Subiu treze pontos desde o almoço anterior. Alguém tá investindo nela."
Sol não estava na mesa. Sol estava sempre no hall, perto do painel, como quem vigia o próprio território.
"Você acredita que alguém investiu na queda dela?" eu perguntei.
"Se fosse fácil, não existia Bolsa dos Reis. A queda dela é o maior evento do ano. As apostas vão explodir quando acontecer."
Falei a verdade sem pensar. Foi isso que me salvou e o que me condenou.
Valentina entrou às onze e cinco. Não no horário tradicional dela, que era onze e trinta. A antecipação era um sinal. Ela estava ansiosa. Quem não está ansioso não adianta o passo.
Valentina vestia o uniforme de Nível 1: blazer com monograma dourado, calça de corte reto, sapatos de couro que custavam mais que o aluguel do meu quarto no subsolo. O cabelo estava no lugar exato. A maquiagem, impecável. O sorriso, vazio de qualquer coisa que não fosse controle.
Ela sentou-se na mesa dos Nível 1. Ninguém a recebeu com aplausos. Ninguém precisava. O silêncio que se fez ao redor da mesa era de respeito, o mesmo que se faz diante de uma porta que não deve ser aberta.
Sentou ao lado de Lulu, que era o único rosto genuinamente feliz no refeitório. Lulu sempre feliz. Lulu não entendia poder. Lulu entendia coisas como "hoje o risoto tá bom" e "aquele menino de cabelo ruivo canta mal no show de Natal". Lulu era a antítese da Colina. E, por isso, Valentina a manteve perto.
Eu comia devagar. O risoto sem trufa tinha gosto de arroz com manteiga. O mesmo arroz, só que mais barato. Zeca comia como quem come em casa: sem pressa, sem olhar, sem avaliar.
"E se eu fosse pra mesa deles?" eu disse, apontando pra mesa dos Nível 1.
Zeca parou. Olhou pra mesa. Olhou pra mim.
"Pô, mano. Por quê?"
"Pra ver se o risoto é diferente."
"O risoto é o mesmo, Bento. A diferença é o prato. Eles servem no porcelana de Limoges. A gente, no cerâmico branco. O sabor é idêntico. O preço é o que separa os dois."
Pilar olhou pra mim de um jeito que me disse claramente: "Se você fizer isso, ninguém vai te perdoar." Ela estava certa. Sentar na mesa dos Nível 1 era mais do que quebra de hierarquia. Era uma declaração de guerra.
Valentina estava conversando com alguém ao lado. Eu não prestava atenção. Estava olhando pros sapatos. Sapatos de couro de bezerro, cor camel, solado de borracha natural. O mesmo modelo que todo Nível 1 usava, exceto que o meu sapato era um tênis de futebol genérico que eu tinha comprado no mercado de Madureira. A diferença era absurda. E, por isso mesmo, invisível. Ninguém me via como atleta. Ninguém me via como pessoa.
Valentina me viu.
Ela não me olhou direto. Não naquele momento. Ela fez algo melhor. Ajeitou a posição da própria cadeira de forma que ficasse voltada na minha direção. Não virou o corpo. Virou a perspectiva. Como quem vira o espelho sem se mexer.
O olhar nos encontrou. Dois segundos. Três. Eu vi a avaliação passar pelo rosto dela como quem lê um preço. O corpo atlético, a pele morena, o cabelo preto, o tênis genérico. O cálculo era rápido e completo.
Ela fez algo que ninguém fazia. Sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos. Era o sorriso de quem tem uma arma e ainda não decidiu a quem atirar.
"Ele não é de nós," ela disse para Lulu. Não em voz alta. Suficiente para quem estava perto ouvir. Lulu não ouviu. Lulu não prestava atenção nessas coisas. Era por isso que Lulu estava feliz.
A mesa dos Nível 1 ficou em silêncio. Os olhos de todos se voltaram para mim. Eu não levantei. Não me movi. Continuei comendo risoto com risoto, como se a gravidade da situação não me afetasse. Mas afetava. A gravidade me afetava. O que não afetava era o estômago.
Então ela veio até mim.
Valentina desceu da mesa dos Nível 1. Não foi uma marcha. Foi uma descida calculada, como uma escada de mármore. Cada passo era medido. Cada braço se movia com precisão de quem sabe que está sendo observado.
"Ei, novinho," ela disse. Parada na minha frente. "Você sabe o que é um filtro?"
O refeitório parou. Não literalmente. Mas os olhares se concentraram. Cada garfo que se erguia do prato, cada copo que parava no meio do caminho. O refeitório inteiro virou auditório.
"Filtro?" eu disse.
"De foto. De filtro. Você usa, né? Todo mundo usa. É prático."
"Eu uso filtro de sol," eu disse. "O de sol é diferente. Protege a pele. O de foto protege a imagem. A diferença é que o de sol não mente."
A mesa dos Nível 1 riu. A risada foi curta. Contida. Mas foi risada. Ninguém ria de Valentina há meses. A risada era como água numa represa: quem primeiro abre a comporta, abre para todos.
Valentina não se abalou. Ou melhor, se abalou de um jeito que só eu consegui ver. Um microespasmo no lábio inferior. Menos de um segundo. Mas eu vi. Eu vi porque eu sei ler isso. Vi nos campos de areia, quando os meninos de colégio caro tentavam me intimidar e eu via o medo antes do soco.
"Talvez você não conheça filtros fotográficos," ela disse. A voz era doce. O tom era envenenado. "Mas eu conheço as suas chuteiras. São de que ano?"
"Não sei."
"Não sabe. Você deve ter comprado no bico, ou alguém doadas. Chuteira do Mont Blanc é de marca exclusiva. Marca importa, Bento. Marca diz quem você é. E as suas chuteiras dizem que você é o que você não é."
A mesa dos Nível 4 ficou em silêncio. Pilar apertou os dedos em volta do garfo. Zeca me olhou com a expressão de quem sabia que isso ia acontecer.
"Você tá certa," eu disse. "As chuteiras não são do Mont Blanc. São de marca genérica, compradas num bico. Mas o que elas não dizem não é quem eu não sou. Elas dizem que eu cheguei aqui sem comprar nada. E isso vale mais que qualquer marca."
Valentina me olhou. Eu olhei Valentina. O refeitório inteiro nos olhava.
A mesa dos Nível 1 ficou em silêncio total. Ninguém respirava. A respiração tinha saído do ambiente.
Então, de trás da mesa dos Nível 1, alguém gargalhou. Uma gargalhada. Alta. Genuína. Não era Antônia. Era uma aluna que eu nunca tinha visto, morena, de cabelos cacheados, que eu reconheceria só depois como sendo Maitê Oliveira. Maitê, que só gostava de duas coisas no mundo: correr e ver humilhação.
A gargalhada se espalhou. A mesa dos Nível 4 riu. Os de trás, os de baixo, os de nível desconhecido. Risadas que estavam sendo contidas desde o começo do almoço. Risadas que eu não sabia que existiam.
Valentina não riu. Não fez a menor graça. Mas ela se levantou e foi embora. Sem olhar pra trás. O que é mais grave do que olhar pra trás com raiva. Quem vai embora sem olhar pra trás está dizendo que não precisa confirmar nada. Que ela já sabe tudo.
O refeitório voltou ao normal. Mas não totalmente. Havia um vácuo, um vazio onde a risada tinha estado. E todo mundo sentia esse vazio como quem sente falta de ar depois de prender o fôlego por muito tempo.
A notícia não demorou. Em dez minutos, o painel de seguidores do hall principal já mostrava o efeito: Valentina havia caído para 459.240. Uma queda de quase quatrocentos seguidores em menos de quinze minutos. E continuava caindo.
Eu passei pelo hall no caminho da próxima aula. O painel brilhava. Os números piscavam. 458.900. 458.320. 457.880. Cada atualização era um voto. Cada voto era uma decisão de alguém que viu a cena e decidiu que o preço de se rir de Valentina era mais barato que o preço de não se rir.
Sol estava encostada no painel. Ela não disse nada. Só me olhou. O olhar dela dizia: "Você fez isso. Ou você não fez. Mas o resultado é o mesmo."
"Eu não fiz nada," eu disse.
"O resultado é o mesmo." Ela se afastou. "457 mil agora. Em uma hora, vai ser 455. A queda é exponencial. Quando o gado sabe que o touro está ferido, todos correm."
No Oratório, Valentina estava sentada sozinha.
Não havia ninguém. O Oratório era uma biblioteca com acesso restrito, sala de leitura com livros encadernados em couro e uma janela que dava para o jardim de esculturas. Valentina usava o lugar como estúdio de gravação, onde gravava os roteiros do Oráculo com a voz calma que todo mundo conhecia.
Mas agora ela não estava gravando. Estava sentada na cadeira de madeira, de costas para a estante, com as mãos sobre a mesa. O celular estava virado para baixo. A tela preta refletia o teto da biblioteca.
Lulu entrou depois de mim. Eu tinha sido avisado por Pilar: "Valentina tá no Oratório, de mal com o mundo. Não chega perto."
Mas eu já tinha passado pelo painel. Já tinha visto os números caindo. E eu precisava saber o que acontecia quando uma pessoa perdia o número que definiu a vida dela.
"Você pode sair," Valentina disse sem levantar os olhos.
"Eu não vim te ver."
"Todas as visitas são mentirosas. É a primeira regra que aprendi no Oráculo." Ela levantou os olhos. "Você veio rir?"
"Não."
"Então o que veio fazer?"
"Nada. Estava passando."
"Passando por onde? O Oratório é um lugar de acesso restrito. Você não tem acesso. A menos que esteja aqui de propósito."
Eu me sentei na cadeira do lado. Não esperei convite. Sentei.
Valentina não disse nada. Ficou em silêncio. O silêncio no Oratório não era vazio. Era uma presença ativa, como se a biblioteca estivesse respirando. As estantes pareciam escutar. Os livros pareciam testemunhar.
"Quatrocentos e cinquenta e sete mil," eu disse.
"Você sabe contar."
"Sei."
"O que você pensa sobre isso?"
"Penso que um número é um número. Que o mundo não acaba quando o número cai."
Valentina me olhou. Não com raiva. Com uma curiosidade que eu não esperava. Ela estava medindo algo. Medindo o que eu era. A diferença entre quem eu parecia e quem eu realmente era.
"Você não entendeu," ela disse.
"Entendi sim."
"Não. Você entendeu que um número caiu. Não entendeu que isso é tudo o que eu tenho. O que eu sou. Quem eu sou."
Isso doeu. Não na cara. No lugar onde o peito começa a apertar. Eu reconheci aquela sensação. Era o mesmo aperto que eu sentia quando via minha mãe deitada na cama do nosso apartamento pequeno, esperando a cirurgia que ainda não tinha dinheiro. Era o mesmo aperto. A mesma sensação de que tudo o que você construiu é frágil como papel.
Mas eu não podia dizer isso. Não podia me colocar no mesmo lugar que ela. Eu não tinha construído nada. Eu tinha chegado. E era diferente.
"Você tá errada," eu disse. "O que você é não é o que aparece na tela. É o que você faz quando a tela apaga."
Valentina olhou pra mim. O silêncio durou oito segundos. Eu contei.
Lulu apareceu na porta. "Val, o que tá acontecendo? A queda é real? Eu vi o Sol postando no grupo."
"Saia, Lulu."
"But... Eu preciso saber. Se foi o Bento ou se foi o sistema. Se foi o sistema, a gente pode reclamar pro Sturm. Se foi o Bento, a gente precisa..."
"A gente precisa de nada," Valentina cortou. "Saia."
Lulu olhou pra mim, confusa. Saiu.
"Você viu isso?" Valentina disse. "Lulu. Ela não entende. Ela lê tudo como se fosse uma receita de bolo. Ela não entende que o mundo não é uma receita."
"Entende. Lulu entende. Lulu só não se importa com o que entende."
"O que você sabe sobre Lulu?"
"Nada."
"E está julgando ela de qualquer maneira."
"Não estou julgando. Estou descrevendo. Lulu é assim. Lulu não se importa. O que significa que Lulu é a pessoa mais segura dessa escola."
Valentina olhou pra mim. O silêncio voltou. Mas agora era outro silêncio. Diferente. Mais leve. Não era mais o silêncio de uma guerra. Era o silêncio de duas pessoas sentadas em silêncio, cada uma pensando o que ia pensar.
"Pra que você veio aqui?" ela perguntou.
"Ninguém me mandou."
"Então foi decisão sua."
"Sim."
"Para quê?"
"Eu não sei."
Ela me olhou. Eu me olhei.
"Filtro de sol," ela disse. "Você disse que usa filtro de sol."
"Uso."
"Todo dia?"
"Toda vez que saio. O sol aqui é forte. Na minha cidade, é mais forte ainda. Eu não vivo sem filtro."
"Você usa marca?"
"A marca não importa. O que importa é que protege."
Valentina não disse nada. Ajeitou o celular virado para baixo. Ele não tinha notificação. Não tinha sinal. Não tinha nada.
"Tá bom," ela disse.
"Tá bom quê?"
"Nada. Tá tudo bem. Vá."
Eu me levantei. Quando ia sair, ela disse:
"Bento."
Eu me virei.
"Você é a coisa mais irritante que já me aconteceu."
"Obrigado."
"E eu não gosto disso."
"Nem eu."
Eu saí. O Oratório ficou atrás de mim, como quem fecha uma porta para não ser seguido.
Do lado de fora, no corredor, Lulu me esperava. Não com cara de preocupada. Com cara de quem estava montando uma teoria.
"E aí? O que aconteceu? Conta."
"Eu não tenho nada pra contar."
"Você tá aqui dentro. Ela tá aqui dentro. Vocês dois. Você e a Rainha. No Oráculo. Com silêncio. Isso não é nenhum evento comum."
"Tava passando."
Lulu me olhou como quem olha pra alguém que está mentindo. O que eu estava. Eu estava mentindo. Não era passar. Era ir. Eu fui. E eu não ia dizer o porquê.
"Direita do refeitório," Lulu disse. "Ela tá lá. Sentada. Sem celular. O que significa que o celular tá quebrado. E o celular dela nunca tá quebrado. Nunca."
"Como você sabe disso?"
"Porque eu sou a Lulu. Eu observo. Isso é o que eu faço. Eu observo." Ela fez uma pausa. "Você acha que é o sistema ou é você?"
"Pergunta errada."
"Todas as minhas perguntas são erradas. Mas essa é a menos errada."
"Deixa eu te falar uma coisa, Lulu. O que você acha que é o Oráculo?"
"É um blog. Anônimo. Vementoso. Faz cair reis e rainhas."
"É um espelho. O que o espelho faz é mostrar o que existe. Não é a culpa do espelho se o que existe é feio."
Lulu não entendeu. Lulu nunca entendia. Mas eu não disse mais nada. Andei. Lulu seguiu.
No refeitório, a mesa dos Nível 1 estava vazia. Valentina não voltara. O lugar onde ela tinha se sentado parecia um lugar abandonado. A cadeira desalinhada. A garrafa de água que ela não tinha levado. O guardanapo dobrado no lugar exato onde ela tinha posto. Tudo ali, menos a pessoa.
A mesa dos Nível 4 estava diferente. Pilar não estava sentada. Zeca não estava. Eu estava sozinho. O risoto do dia seguinte ainda não tinha saído. O fogão do refeitório funcionava em rodízio, e eu ainda não tinha aprendido o ciclo.
Passei pelo painel de seguidores mais uma vez. 456.120. Caía como uma pedreira. A queda acelerava. Quanto mais caía, mais rápido caía. Era uma lei física que eu conhecia bem. Quanto mais peso uma coisa perde, mais rápido ela cai.
No hall principal, Sol estava de pé. O tablet na mão. Os dedos rolando a tela.
"Quatrocentos e cinquenta e seis," ela disse. "Em três horas. A queda mais rápida que eu já vi em quatro anos de bolsa."
"Algo vai acontecer," eu disse.
"Algo já aconteceu. A questão é o que vem depois. Quando o topo desliza, todo mundo desliza junto. Não tem quem segura."
"Você sabe o que causa?"
"Não. Mas Sol não é o lugar certo pra perguntar. Pergunta quem tem acesso ao que não é acessível." Sol fechou o tablet. "O Sturm não vai explicar. O Sturm nunca explica. O Sturm observa. E quando o Sturm decide falar, é pra dizer algo que já deveria ser óbvio."
"O Sturm sabe que eu fiz isso?"
"Você fez o quê?"
"Nada. Eu não fiz nada. Eu comi risoto. Falei com Valentina. O resto não foi comigo."
Sol me olhou. Os óculos grandes refletiam a luz do painel. "Bento. Você acredita que o resto não foi você?"
"Creio."
"E se o resto for você? E se a coisa mais perigosa que você já fez na vida for exatamente o que você não tem consciência de que está fazendo?"
Eu não respondi. Sol não esperava resposta. Ela era a casa das apostas. A casa não escolhe. A casa registra.
À tarde, no campo de treino, os drones estavam mais rápidos. Cada movimento era mais filmado, cada erro mais registrado. Sturm estava no escritório. Tomás estava no tablet, anotando.
Vicente apareceu atrasado. Quatro minutos. Menos do que o habitual. Talvez a queda de Valentina tivesse afetado os horários de todo mundo. Quando o topo muda, o resto tenta acompanhar.
O treino começou. Vicente passou a bola para mim. Não propositalmente. Foi no segundo exercício, um drible de posse de bola, e Vicente me passou a bola como se eu fosse o jogador mais seguro do time. Eu controlei e mandei pro ângulo. Gol.
Ninguém riu. O treino não é lugar de risada.
No intervalo, Zeca apareceu na grade do campo. "Mano, o painel tá em 455. A queda tá acelerando. Se continuar nesse ritmo, antes do fim do dia ela tá em 450."
"450 é o número redondo. O número redondo é o que todo mundo vê."
"Se ela cair pra 450, ela perde o posto de rainha. E se perder o posto de rainha, o que ela é?"
"Uma garota que não sabe o que é sem o que ela não sabe o que é."
Zeca riu. Um risinho, sem graça. "Você é cruel, mano."
"Eu sou honesto. Cruel é o que o mundo faz com a verdade."
O treino acabou. Os alunos foram embora. Zeca ficou. Eu fiquei. Os drones foram desligados um a um. O campo ficou vazio. O silêncio voltou.
Zeca se sentou na grade. "Bento. Eu tô aqui pra te avisar. O que você fez hoje no refeitório... não foi um comentário. Foi uma declaração. O refeitório inteiro viu. O painel vai mostrar. E o que o painel mostra se espalha. O que se espalha se vira história. O que vira história vira decisão. E decisão vira consequência."
"Eu sei."
"Eu sei que você sabe. Mas saber não muda. O que muda é o que vem depois. Se ela cair, ela não vai desistir. Ela vai reagir. E reagir no Mont Blanc é diferente de reagir no resto do mundo."
Eu não disse nada. Zeca entendeu.
"Fique esperto," ele disse. "A queda de Valentina não é o fim. É o começo."
Zeca desceu da grade. Foi embora. Eu fiquei sozinho no campo escuro. Os refletores estavam acesos. A grama artificial brillhava como um mar congelado. Os drones estavam parados. O campo era meu. O campo era de todos. O campo era o lugar onde as palavras não importavam, só o que você fazia com a bola.
Mas naquela noite, o campo não era meu. Era de quem ia decidir o que acontecia amanhã. E eu ainda não sabia quem era.
Comments (0)
No comments yet. Be the first to share your thoughts!